Cibercultura e o dilúvio infinito de informações na Educação a Distância
“O segundo dilúvio não terá fim. Não há nenhum fundo sólido sob o oceano de informações. Devemos aceita-lo como nossa nova condição. Temos que ensinar nossos filhos a nadar, flutuar, talvez a navegar”.
É assim que Pierre Lévy, filósofo da informação
e autor do livro Cibercultura (1999) apresenta o que ele chama de segundo
dilúvio, se comparado ao dilúvio bíblico.
No dilúvio de informações criado no ciberespaço
não navega uma única arca, mas várias arcas que se comunicam, se nutrem e se multiplicam.
As arcas que flutuam no ciberespaço de
Pierre Lévy são como os nós (pontos de conexão) da rede descrita por Manuel
Castells, mas a necessidade de navegar para não naufragar é a mesma.
Falamos sobre a sociedade em rede e sobre a
necessidade de aprender a navegar na rede no artigo:
mas vale apresentar aqui a metáfora da rede no conceito de Sociedade em Rede:
A metáfora da rede no conceito de Sociedade em Rede
“O que distingue a sociedade em rede é a sua estrutura descentralizada, mas interconectada por nós capazes de criar infinitas conexões.
Castells explica que o conceito de rede é
essencial na caracterização da sociedade na era da informação. Segundo ele,
“rede é um conjunto de nós interconectados” e cada nó é um ponto de
convergência na rede.
A distância entre dois pontos (nós na rede)
será definida pela topologia da rede e será menor se os dois pontos fizerem
parte da mesma rede.”
A partir daqui, podemos começar a pensar o ciberespaço e a
cibercultura apresentados por Pierre Lévy.
O que é o ciberespaço?
O ciberespaço é o espaço de comunicação criado
e alimentado por nós (humanos) na rede mundial de computadores. Para Lévy o ciberespaço
compreende não somente a infraestrutura tecnológica mas também as informações e
as interações entre os humanos que nele transitam, ou melhor, navegam.
O que é a cibercultura?
A cibercultura é a cultura (conjunto de técnicas,
práticas sociais, atitudes e valores) que se desenvolve dentro do ciberespaço.
No livro Cibercultura, publicado
originalmente em 1997, como resultado de um relatório apresentado no Conselho
Europeu, o autor nos dá, primeiramente, um panorama do funcionamento técnico do
ciberespaço abordando o impacto social e cultural das novas tecnologias.
Depois, aborda as implicações culturais do
desenvolvimento do ciberespaço, ou seja, a cibercultura com suas perspectivas de
transformar a nossa sociedade em rede em um oceano de arcas fortes navegando em
harmonia, mas também, o lado negativo da cibercultura.
Assim como ele, eu sou uma otimista mesmo
sabendo que a Internet não é a solução para todos os problemas do mundo
principalmente porque, também aqui existem os excluídos da Arca de Noé.
Fato é que 25 anos após a publicação do
livro, o ciberespaço é o espaço onde vivemos pois a vida da maioria dos humanos
hoje, já é “híbrida” confundindo o on e o offline nos mais diferentes aspectos.
Home banking, home office, cartões
inteligentes, voto eletrônico, imposto de renda online, inscrições via
internet, ensino a distância online, redes sociais, grupos de estudos online,
assistentes digitais, internet das coisas, tudo isso e muitos outros aspectos
do nosso dia a dia fazem com que ciberespaço seja o nosso cotidiano.
Neste artigo nós trataremos da influência
da cibercultura na Educação a Distância observando três exemplos: os cursos online
livres, os grupos de estudo online e o marketing de conteúdo.
Educação a Distância na Cibercultura
A Era da Informação, era na qual a Cibercultura
nasceu, nos propõe uma nova relação com o saber: o saber-fluxo que está em
constante desenvolvimento.
Na Cibercultura todos são “produtores de conteúdo”.
Criando, compartilhando, comentando, nós estamos todos gerando dados e informações
para alimentar a rede.
Na Era da Informação, a informação está na
rede e disponível para todos dentro e fora do sistema formal de educação.
Meu convite é para analisarmos as possibilidades de educação informal em rede como exemplos da Cibercultura na Educação a Distância:
Cursos Livres como possibilidade de aprendizagem ao longo da vida e “por prazer”
Plataformas como a Udemy e a Udacity que
oferecem cursos online na modalidade assíncrona (um tipo de MOOC – Massive Open Online Courses) com preços acessíveis reúnem especialistas nas mais diversas
áreas e ensino à pessoas querendo aprender de tudo para seu desenvolvimento
pessoal, profissional, físico e até mental.
Grupos de leitura e estudos online
Nos fóruns, nos grupos fechados nas redes
sociais, no WhatsApp, no Google Classroom ou no Zoom, pessoas do mundo inteiro
se encontram, aprendem e ensinam online em cursos organizados por especialistas
ou em grupos de entreajuda.
Marketing de conteúdo online
Também o mercado, os influenciadores, os
especialistas em Marketing e os “marketeiros” ensinam através do conteúdo que
produzem e compartilham online (nas redes, no YouTube, nos blogs e em cursos e
palestras gratuitas) com o objetivo de “educar o cliente”.
Cibercultura e o dilúvio infinito de informações na Educação a Distância
Apesar do meu otimismo em relação ao ciberespaço
e à cultura de saber-fluxo, descentralizado e acessível a todos (hoje, qualquer
pessoa com uma conexão à Internet pode aprender e ensinar online), eu vejo de
perto os problemas.
Como eu também mostrei no artigo sobre a Educação a Distância na Sociedade em Rede, sendo eu mesma uma professora que empreende
ensinando online, eu me sirvo diariamente dos três exemplos citados acima.
Conseguir distinguir o que é Marketing do
que é Ensino, assim como aprender a usar a rede no processo de
ensino-aprendizagem são os grandes desafios dos participantes da
cibercultura.
O dilúvio da informação atinge também a Educação
a Distancia e nós precisamos ter sempre em mente que:
“O segundo dilúvio não terá fim. Não há
nenhum fundo sólido sob o oceano de informações. Devemos aceita-lo como nossa
nova condição. Temos que ensinar nossos filhos a nadar, flutuar, talvez a
navegar”. (Pierre Lévy)
Navegar para não naufragar, “eis a inteligência
verdadeira” (diria Fernando Pessoa sobre o ciberespaço?)
E você? Como usa o ciberespaço para
aprender e ensinar em rede?

Também este post no blog é um exemplo da influência da cibercultura no Ensino a Distância, visto que escrevê-lo foi uma atividade do Mestrado em Pedagogia do eLearning na Universidade Aberta de Portugal.
ResponderExcluirÓtimo post, enquadrando a visão de Lévy acerca da cibercultura e do ciberespaço e contextualizando com a sua prática profissional!
ResponderExcluirGosto especialmente do destaque dado à afirmação: "Temos que ensinar nossos filhos a nadar, flutuar, talvez a navegar", pois considero que enquanto professores, educadores e formadores é este o nosso objetivo. Tal como no velho provérbio que diz que se dermos um peixe a um homem o alimentamos por um dia, mas se o ensinarmos a pescar o alimentamos para a vida, há que promover a aprendizagem da navegação no oceano de informação do ciberespaço, que já faz e continuará a fazer, cada vez mais, parte do "aprender a aprender" e da "aprendizagem ao longo da vida".
Também gostei dessa citação, usei-a, na minha reflexão, e faz-me pensar nas várias faixas etárias, onde continuam a existir os excluídos digitalmente tanto nos mais novos mais novos como nos mais velhos. Como referiu, é preciso mesmo, promover a aprendizagem na navegação".
ExcluirQue bom encontrar vocês por aqui meninas! A Cibercultura é a nossa realidade e não podemos mais fugir disso. Precisamos no adaptar e como professores, ensinar a nadar 😊
ExcluirObrigada pela partilha!
ResponderExcluirDe fato passados 23 anos desde a publicação do livro, continua atualíssimo, e cá estamos nós na aprendizagem coletiva, abertos, e receptivos à mudança e inseridos na cibercultura.
Exatamente Sónia! e que bom que estamos envolvidos ativamente neste processo!
ExcluirLeila, sempre esclarecedora e pragmática! Parabéns e Obrigado pela partilha!
ResponderExcluirObrigada Pedro!
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