Educação a Distância na Sociedade em Rede

 

A sociedade na era da informação é uma sociedade conectada e organizada em rede, na rede mundial de computadores, o que facilita o acesso e o compartilhamento de informações. Se o acesso à informação torne-se aberto, qual é o papel da Educação a Distância na Sociedade em Rede?


Qual é o papel da Educação a Distância na Sociedade em Rede?

Este artigo não pretende, e nem poderia, criar diretrizes ou trazer respostas prontas para esta questão. Contudo, como estudante, professora e formadora de formadores no Ensino a Distância, gostaria de compartilhar com você (que caiu na minha rede 😊) algumas reflexões sobre o nosso papel dentro desta sociedade que está em contínua (trans)formação.

Comecemos pelo conceito de rede na caracterização da Sociedade em Rede, que segundo Manuel Castells, autor do livro “A Sociedade em Rede” (Tradução: Roneide Venancio Majer, Ed. Paz e Terra, 2006) que é o ponto de partica para este artigo, é essencial para o debate.


O conceito de rede na caracterização da Sociedade em Rede

O que distingue a sociedade em rede é a sua estrutura descentralizada, mas interconectada por nós capazes de criar infinitas conexões.

Castells explica que o conceito de rede é essencial na caracterização da sociedade na era da informação. Segundo ele, “rede é um conjunto de nós interconectados” e cada nó é um ponto de convergência na rede.

A distância entre dois pontos (nós na rede) será definida pela topologia da rede e será menor se os dois pontos fizerem parte da mesma rede.

A organização social em rede, que se distingue da sociedade piramidal (com o poder centralizado no topo da pirâmide), não é, por si só, uma característica da sociedade que está se formando a partir Word Wilde Web como explica a professora Viviane Mosé neste vídeo: 

 

Contudo, a popularização da banda larga tornou a globalização (da informação, da cultura e da economia) uma realidade para a maior parte da população mundial.

Neste contexto, vemos a ascensão das redes sociais, que tornam o conceito de rede mais compreensível, potencializando a possibilidade de criação de nós (pontos de conexão).

Aqui, os nós conectores têm o poder de influenciar diretamente a sua rede e o mundo viu o nascimento de uma nova profissão: o “influenciador digital”.

O poder (e os perigos) da influência não são uma novidade, a novidade aqui é a possibilidade de formar opinião e exercer influência não é mais privilégio de uma minoria capaz de controlar os meios de comunicação.


Os conectores são os detentores do poder

“Os conectores são os detentores do poder” nos diz também Castells na conclusão do primeiro volume da sua trilogia sobre a Era da Informação.  

Se em 2006, data da tradução publicada no Brasil pela editora Paz e Terra, ele ainda considerava grandes grupos financeiros, religiosos e grandes instituições como os conectores detentores do poder, a popularização da banda larga e a adesão massiva às redes sociais trouxe mudanças significativas para este cenário.

Os interesses financeiros continuam guiando ações nas diferentes áreas do conhecimento, da ciência, da cultura, da religião e influenciando os mais diferentes âmbitos da nossa vida.

Contudo, o poder de influenciar está diretamente ligado ao poder de conectar e de gerar conexão. Assim, o poder da influência está ao alcance de todos, inclusive de nós professores, estudantes, pesquisadores, trabalhadores, ativistas.

Esta perspectiva de rede e de descentralização do poder (que na Era da Informação, é a informação) nos traz vantagens que iluminam e salvam, assim como desvantagens que matam.

Em 2016, nós vimos a palavra “pós-verdade” ser eleita como a palavra do ano em língua inglesa e entrar para o  Oxford Dictionaries.

Logo depois vimos como as Fake News (ou pós-verdades) difundidas facilmente nas redes sociais, assim como os dados coletados por essas empresas e vendidos indevidamente influenciaram (e continuam influenciando) eleições e decisões políticas no mundo inteiro.

Para ver, durante a Pandemia de Corona Virus em 2020, de um lado:

- uma rede de solidariedade e de entreajuda se desenvolver em grupos criados nas redes sociais;

- a difusão de informações em grande escala para orientação da população;

- a partilha de informações e resultados de estudos entre pesquisadores do mundo inteiro em tempo real, o que possibilitou o desenvolvimento uma vacina em tempo recorde.

De outro lado, vimos a proliferação de notícias falsas que geraram pânico ou minimizaram a gravidade da situação, assim como a proliferação de uma campanha anti-vacinação.

Na Era da Informação, o poder está na informação que recebemos. Em uma Sociedade em Rede a qualidade das informações que recebemos está diretamente ligada aos nós (pontos de conexão) que estabelecemos e alimentamos na nossa rede.

Sendo assim, o poder está na rede?

O documentário "o dilema das redes", disponível na Netflix mostra com evidências como essas relações são estabelecidas.


Educação a Distância na Sociedade em Rede

Também a Educação a Distância encontra novas possibilidades e grandes desafios na era digital. As possibilidades de ensino-aprendizagem se multiplicam com as ferramentas de comunicação, de compartilhamento de informações e de co-working síncronas e assíncronas.

Essas ferramentas possibilitam, por exemplo, que uma professora brasileira possa morar em uma cidadezinha alemã com menos de 40 mil habitantes, estudar em uma universidade portuguesa, ter mais de 70 mil alunos online distribuídos em 116 países e alcançar mais de 100 mil pessoas com o conteúdo compartilhado na sua rede.

Mapa de alunos online hoje, 11.11.2022:




Este é um exemplo modesto se comparado a outros professores criadores de cursos online na modalidade de cursos livres, assim como quando comparado aos números dos chamados influenciadores digitais que assumem também o papel de educadores digitais.

Como no exemplo da pandemia de corona vírus, a proliferação do vírus do curso online traz inúmeros problemas e provoca conflitos que poderão ser discutidos posteriormente.

Mas a Sociedade em Rede também aprende em rede, inclusive nas redes sociais e esta é mais uma demonstração da descentralização do poder. Na era digital todos os indivíduos conectados na rede podem aprender e ensinar quando, onde e com quem preferirem sem depender de uma instituição formal de ensino.


Reflexões para a Educação da Sociedade em Rede

Uma educação adaptada para uma sociedade em rede na era digital precisa preparar indivíduos capazes de criar suas próprias redes com nós saudáveis capazes de continuar se expandindo e gerando novos nós.

Daí a necessidade de voltarmos para uma educação mais humanista, como sugere Edgar Morin (2000) quando indica os 7 saberes necessários para a educação do futuro, necessidade também indicada por Yuval Noah Harari nas suas 21 lições para o século 21, por tantos outros pensadores e professores quando enfatizam a necessidade de se ter “pensamento crítico” para poder navegar sem naufragar na rede.

Para nós educadores, as perguntas são:

  • Eu estou navegando com segurança e criando nós sadios, com possibilidades de crescimento nesta rede?
  • Como eu posso fortalecer a minha rede?

A partir daí, a pergunta é:

Como eu posso ajudar meus alunos a desenvolver o pensamento crítico para que eles possam criar as suas próprias redes de conexão?

A reflexão é válida para todos, inclusive na Educação a Distância, não é mesmo?

Comentários

  1. Adorei esta reflexão. Parabéns. Apenas na frase ".... o poder da influência está ao alcance de todos, inclusive de nós professores, estudantes, pesquisadores, trabalhadores, ativistas." eu diria ao alcance dos utilizadores das Tics .... conheço um pouco de alguns países africanos onde tudo é tão diferente. Mas sim a sociedade em rede potencia o sentido crítico e quem sabe as políticas públicas se virem mais para reduzir o fosso entre países mais e menos desenvolvidos.

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  2. Oi Alexandra! É exatamente assim: o poder da influência (online) está acessível a todos os conectados na www. Contudo as redes existem, e os influenciadores também, mesmo fora da rede mundial de computadores e em alguns casos podem ser ainda mais fortes eu acho...

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  3. Reflexão muito interessante, que levanta várias questões. Concentro-me no ponto que é muitas vezes esquecido, mas que aparece como o " "pensamento crítico" para poder navegar sem naufragar na rede". Gostei muito desta referência, pois é muitas vezes negligenciada e aqui existe um vasto campo de atividade a ser desenvolvido pelas famílias, no âmbito da educação e pelos docentes, no ensino. A rede em si mesmo, como a esmagadora maioria das tecnologias, é neutra, isto é, o uso que se faz dela é que irá determinar a sua utilidade ou maleficio. Por isso, desenvolver na pessoa um pensamento crítico no acesso à informação disponível na rede, para que ela própria possa analisar a validade e fiabilidade da informação que acede, aparece como um desafio premente na formação da pessoa e do estudante.

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  4. Oi Luis! Muito obrigada pela leitura e pela contribuição no comentário. Sim, o “pensamento crítico” é o ponto crítico do assunto, né?
    Sabemos todos dessa necessidade, mas pouco sobre como desenvolver, efetivamente, esse senso crítico. Este é um trabalho conjunto que não podemos deixar para somente uma parte dos envolvidos na educação como bem colocaste acima.
    Minha preocupação primeira é conosco: os adultos, pais e professores, sabe? Nós mesmo nem sempre conseguimos navegar sem naufragar...

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    Respostas
    1. Excelente Leila e Luis! Sobre pensamento crítico, penso que ele deve se iniciar antes até da navegação e leitura. Que perguntas quer responder? Aqui no Brasil existe uma letra de música, da Marisa Monte, que diz “o que você quer saber de verdade?”. Raras vezes sabemos a resposta, nem os nossos alunos, concordam? O pensamento crítico deveria ter início nessa pergunta de aprendizagem, não? Penso que sim.
      Segundo Zahra Davison, do grupo Enroy Yourself, ela diz que “uma pergunta de aprendizagem é uma pergunta da sua tese. É o título do curso que você está a criar para si mesmo. Ela emoldura os seus objetivos, desafios ou curiosidades, como um lugar de exploração ativa”. Acredito que a pergunta de aprendizagem é o leme do barco que guiará a sua navegação nesse mar de informação.
      Obrigada pelas reflexões.

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