Autonomia no Ensino a Distância


A Pegadogia do eLearning é uma Pedagogia da Autonomia?

Promover a autonomia (para estudar, trabalhar, pesquisar, refletir, dialogar, produzir e compartilhar) sempre foi uma preocupação minha como professora, mesmo antes de eu ensinar on-line. Por isso, poder participar de uma discussão sobre este assunto com pessoas que assim como eu, pensam sobre a Educação e o Ensino a Distância é de grande valia para mim.

Aqui neste artigo você encontrará parte da minha contribuição para discussão no Mestrado em Pedagogia do eLearning da Universidade Aberta, considerações relevantes dos colegas e também, algumas reflexões minhas a partir dessa discussão.

Se você também se interessa pelo assunto e procura maneiras de promover a autonomia nos seus cursos online, leia este artigo com atenção e contribua para o diálogo nos comentários.

 

A Pegadogia do eLearning é uma Pedagogia da Autonomia?

Como mencionado na discussão sobre a Gestãodo Tempo no Ensino a Distância:

"Para mim, a pedagogia do eLearning é uma pedagogia da autonomia (como Paulo Freire discute no seu livro homônimo) e percebo que os estudantes no ensino a distância ganham autonomia para desenvolver seus estudos tendo domínio da tecnologia utilizada (visto que o primeiro tipo de interação em um curso online é do tipo estudante-tecnologia) assim como a clareza dos objetivos pedagógicos e da metodologia utilizada no curso/instituição."

Sendo assim, e falando diretamente com pessoas que ensinam ou querem ensinar online, precisamos entrar nessa discussão não com o pensamento de adultos, profissionais qualificados e preparados para participar de um curso de mestrando a distância, mas os profissionais que precisam promover a autonomia dos estudantes de cursos a distância.

Se como bem lembrou a Professora Sílvia Cotrim citando Paulo Freire em A Pedagogia da Autonomia (1996)

“...ninguém é sujeito da autonomia de ninguém. Por outro lado, ninguém amadurece de repente, aos vinte e cinco anos. A gente vai amadurecendo todo dia, ou não. A autonomia, enquanto amadurecimento do ser para si, é processo, é vir a ser”

Nós precisamos, enquanto educadores no Ensino a Distância, nos perguntar:

Qual é a fronteira entre promover a autonomia e falhar na orientação que as pessoas precisam e esperam de mim?

Observando o Modelo Pedagógico Virtual da Universidade Aberta, como nos propõe Andreia Bento:

- O estudante on-line tem de ser capaz de fazer escolhas, tomar decisões, gerir o seu tempo, investigar e trabalhar de forma autónoma os temas que lhe suscitam curiosidade e interesse, resolver problemas e saber procurar ajuda nos professores e colegas sempre que necessário, trabalhar em grupo ajudando outros a superar as suas dificuldades e procurar o apoio do grupo de pares para desenvolver as habilidades que precisa;

- Ao professor caberá esclarecer o que se pretende do aluno, orientar, ajudar a superar as dificuldades, incentivar a curiosidade, dar feedback construtivo. No caso específico deste modelo de ensino, baseado sobretudo na comunicação assíncrona, considero essencial que o professor atue como mediador entre o estudante e o conteúdo do curso, ajudando a que o primeiro não se sinta isolado, promovendo a interação entre pares.

E aqui, eu peço a sua atenção para este ponto:

"Ao professor caberá esclarecer o que se pretende do aluno, orientar, ajudar a superar as dificuldades, incentivar a curiosidade, dar feedback construtivo."

Ou seja, nós precisamos encontrar maneiras de promover a autonomia dos estudantes a distância (nas universidades, empresas privadas ou em cursos livres).

Como fazer isso na prática? Eis a questão!

Esta é realmente uma questão que me acompanha desde o início da minha carreira docente e algumas estratégias que eu tenho desenvolvido desde quando eu comecei a criar meus próprios cursos online de forma independente (ou seja, empreendendo através da criação de cursos online síncronos e assíncronos) eu posso compartilhar aqui com você.

Note que essas estratégias continuam se desenvolvendo a partir da constatação das necessidades dos estudantes e que elas são/deverão ser adaptadas para poder se adequar às diferentes metodologias de ensino, assim como às regras de cada instituição.


Como promover a autonomia dos estudantes no Ensino a Distância?

Como mencionado acima, não existe uma regra geral e as estratégias precisam ser adaptadas. Contudo essas estratégias podem nos servir de “farol”.

1 – Crie uma página de inscrição com todas as informações relevantes:

O estudante online só será capaz de tomar uma decisão consciente no momento da inscrição se tiver acesso à todas informações relevantes sobre o curso antes mesmo de se inscrever nele.

Oriente-se no planejamento do seu curso (objetivos, conteúdo programático, atividades, horários, prazos e datas) seguindo o método 5W2h como este:  


2 – Crie um vídeo de apresentação do curso

Os vídeos nos permitem quebrar a distância no Ensino a Distância pois, quando pensados para o ensino, permitem uma maior proximidade entre professores e estudantes, geram simpatia e nos ajudam a ganhar a confiança que as pessoas precisam ter em nós no processo de ensino-aprendizagem. Este vídeo deve estar disponível na página de inscrição do curso e vai ajudar, mais uma vez, para que a matrícula seja consciente.

Neste vídeo eu ensino como: 



3 -  Crie um vídeo e boas-vindas e mostre como o AVA funciona

No Ensino a Distância, a primeira e talvez a mais intensa forma de interação será entre o estudante e a tecnologia. Por isso, é imprescindível mostrar para os estudantes como eles poderão se movimentar dentro da plataforma, onde encontrarão os materiais, como poderão enviar suas perguntas e claro: a quem poderão enviar suas dúvidas, qual será o canal privilegiado e como receberão a resposta.

“Ninguém é sujeito da autonomia de ninguém” mas esperar que a autonomia desejada caia sobre nós e os estudantes dos nossos cursos como uma bênção divina é, no mínimo, irresponsabilidade.

A autonomia, também no Ensino a Distância, é um processo e é nosso papel como professores, orientar os estudantes nesse processo.

Ninguém tem autonomia sem saber como usar corretamente as ferramentas de comunicação dentro de um AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem), sem conhecer a proposta do curso, as exigências da disciplina (necessidade de participação, prazos e horários a serem respeitados e as regras da instituição responsável pela formação.

Além disso, o não saber coloca o estudante em um nível de desconforto e insegurança e o faz, na maioria dos casos, desistir do aprendizado.


A autonomia do ser educando, segundo Paulo Freire e na Cibercultura:

No sentido do que Paulo Freire escreve na Pedagogia da Autonomia, respeitar a autonomia do ser educando significa respeitar a sua dignidade, suas raízes e seu conhecimento dando-o voz sem podar e nem discriminar a sua curiosidade, seu gosto estético, sua inquietude, sua linguagem, sua opinião.

O livro é uma chamada para uma reflexão sobre a prática docente e é uma ode ao processo de ensino-aprendizagem onde todos os agentes têm relevância.

Se naquela época o ponto crítico eram os professores autoritários que ainda existem, que acreditam ser únicos donos do saber e se limitam a “transferir conhecimento” (como é o título do capítulo 2 onde está inserida a questão da autonomia, do bom sendo, da curiosidade e tantas outras questões importantes à prática docente), no EaD o ponto crítico são os professores que se limitam a transferir informações.

Quando Pierre Lévy discute “a nova relação com o saber” (Cibercultura, 1999) ele diz que:

“O saber-fluxo, o trabalho-transação de conhecimento, as novas tecnologias da inteligência artificial e coletiva mudam profundamente os dados do problema da educação e da formação”.

Aqui, ele aponta para necessidade de uma educação que leve em consideração o conhecimento e a experiência de cada um, sugerindo a criação de “espaços de conhecimentos emergentes, abertos, contínuos, em fluxo, não lineares, se reorganizando de acordo com os objetivos ou os contextos, nos quais cada um ocupa uma posição singular e evolutiva”.

Para isso, ele propõe duas grandes mudanças nos sistemas educativos e de formação:

1 – Integração do EaD no cotidiano das instituições: o autor sugere o EaD como uma metodologia mais adapta às necessidades dos indivíduos na Cibercultura pois permite a aprendizagem individual/personalizada e a aprendizagem coletiva em rede.

2 – Reconhecimento dos saberes e experiência adquiridas, incluindo os saberes não acadêmicos.

Voltamos assim, à Pedagogia da Autonomia, não é mesmo?

A discussão é longa e a problemática enorme pois inclui aspectos éticos, econômicos, sociais e culturais.

Muito do que Pierre Lévy escreveu em 1999 faz parte da nossa realidade, inclusive os problemas.

Eu, pessoalmente, acredito que ninguém consegue autonomia sem ter voz e sem ter a possibilidade de continuar construindo seu conhecimento a partir da teoria sim, mas com orientações de pesquisa, com a possibilidade de reflexão, de diálogo, empatia e respeito por si e pelo grupo.

O exercício que nós fazemos nos fóruns, aqui no blog e até nas redes (quando utilizamos as redes como ferramenta de ensino) é um exemplo dessa prática: monitorar esses fóruns exige trabalho, dedicação e “respeito à autonomia do ser educando”, assim como exige regulação: de regras, datas e claro, a atenção para que todos sejam igualmente respeitados.

Trazer um conhecimento teórico consistente e aproximá-lo da prática cotidiana dos estudantes criando espaços para colaboração, reflexão, diálogo e trocas é o nosso papel de professores na escola presencial e no EaD.

Orientar esse processo respeitando a autonomia, o tempo e a disponibilidade dos estudantes fazendo-os respeitar a autonomia, o tempo e a disponibilidade dos outros, assim como os prazos e regras da instituição, também.

Não é um papel fácil e por isso, é mais fácil se esquivar dele focando somente na informação.

Ainda segundo Lévy:

“Neste contexto (do EaD como possibilidade de autonomia na educação), o professor é incentivado a tornar-se um animador da inteligência coletiva de seus grupos de alunos em vez de um fornecedor direto de conhecimentos.”

Quem de nós está pronto/a para se tornar um “animador da inteligência coletiva”?

Quem de nós está pronto/a para promover verdadeiramente a autonomia dos estudantes online?

Vamos pensar sobre o assunto? Deixe seu comentário e entre na conversa.

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