Educação Digital e Ecossistemas de Aprendizagem em Rede
Em uma era híbrida onde os espaços de ensino-aprendizagem ultrapassam os muros das escolas, ganham a rede, criam e recriam espaços educativos, não basta conhecer ferramentas digitais. É preciso rever conceitos e quebrar paradigmas para compreender como a Educação Digital e os Ecossistemas de Aprendizagem em Rede contribuem para a aprendizagem.
É sob esta perspectiva que nós vamos abordar os conceitos de Educação Digital e Ecossistemas de Aprendizagem em Rede.
Educação Digital e Ecossistemas de Aprendizagem em Rede
Neste artigo nós partiremos dos conceitos de Educação Digital, Ecossistemas de Aprendizagem e Modelos Pedagógicos Virtuais apresentados pelo Professor José António Moreira no livro Educação digital em rede: princípios para o design pedagógico em tempos de pandemia para procurar entender como se formam os novos Ambientes Virtuais de Aprendizagem em Rede.
Educação Digital
Para Moreira (2020) a Educação Digital não se
restringe ao uso das tecnologias de informação e comunicação na educação e
também não está diretamente ligado ao pensamento computacional.
O conceito ganha amplitude e refere-se “a
um movimento entre atores humanos e não humanos que coexistem e estão em comunicação
direta, não mediada pela representação, em que nada que se passe com um que não
afete o outro” (Moreira & Schlemmer 2020, em Moreira et al. 2020).
Sendo assim, a Educação Digital acontece
por meio de processos educativos que integram diferentes tecnologias digitais, diferentes
pedagogias e metodologias de ensino, em diferentes espaços, usando os mais
diferentes artefatos.
Como o professor esclarece no vídeo Era Híbrida, Educação Disruptiva e Ambientes de Aprendizagem nós vivemos em uma Era Híbrida e portanto, a Educação também precisa ser híbrida integrando diferentes espaços de aprendizagem:
Veja que aqui, o conceito de Educação Híbrida não se restringe à dicotomia entre as modalidades de ensino presencial e a distância, mas na integração entre as diferentes metodologias de ensino (metodologias ativas combinadas com metodologias tradicionais), diferentes artefatos e tecnologias (onde os dispositivos móveis não substituem e sim dialogam com livros, lápis em papel) pedagogias de caráter transmissivo/explicativo com as de caráter dialogante/interativo em diferentes espaços.
A Educação Digital é híbrida, sem fronteiras
e ao longo da vida.
Ecossistemas de Aprendizagem em Rede
Nesse contexto, podemos dizer que a Educação
Digital acontece em Ecossistemas de Aprendizagem em Rede que também são híbridos,
formados por atores humanos (AH) e não humanos (ANH).
Segundo Moreira (2020), um Ecossistema de Aprendizagem
em Rede é “um sistema de aprendizagem em rede que apoia a cooperação, a
partilha do conhecimento, o desenvolvimento de tecnologias abertas e a evolução
de ambientes ricos em conhecimento, sendo que a sua criação depende
exclusivamente das interações entre as espécies, as comunidades e o meio
ambiente, entre os fatores bióticos e abióticos”.
Em um ecossistema digital os fatores
bióticos são representados pelas espécies humana (professores e alunos) e a
digital (conteúdos educacionais). Essas duas espécies sofrem mudanças e transformações, o que os confere vida própria dentro do ecossistema.
Os fatores abióticos são representados
pelas tecnologias que possibilitam as interações entres as espécies humana e
digital.
Pensar um ecossistema de aprendizagem em
rede sob a perspectiva da ecologia nos permite pensar que a educação digital vai
depender relação entre as diferentes espécies e do ambiente. Aqui, as interações
entre as espécies trazem vida ao ecossistema e esta interação depende da tecnologia
para poder acontecer.
Um ecossistema digital de aprendizagem
poderá existir desde que consiga integrar indivíduos da espécie humana e da
espécie digital em um ambiente digital fértil e dinâmico que gere vida (aprendizagem
e colaboração).
Sob esta perspectiva, o grande desafio é conseguir criar esses ambientes férteis que promovam a aprendizagem e a colaboração entre as espécies humana e digital. Daí a importância de desenvolver modelos pedagógicos que envolvam diferentes pedagogias e metodologias de ensino.
Modelo Pedagógico Virtual
O Modelo Pedagógico Virtual é o
planejamento pedagógico, que neste caso, deverá envolver os diferentes atores do
Ecossistemas de Aprendizagem em Rede em um modelo híbrido e multidimensional
baseados em:
- aspectos organizacionais: objetivos de aprendizagem, regras e organização da comunidade/instituição, espaço e tempo da formação;
- aspectos metodológicos: atividades, conteúdo programático, tipo de avaliação;
- aspectos tecnológicos: o ambiente virtual de aprendizagem a ser utilizado, suas ferramentas e utilidades;
- conteúdo: artefatos digitais, materiais, software e recursos.
Esses modelos podem ser construídos com foco
nos diferentes atores no processo de ensino-aprendizagem:
- modelos centrados no professor: onde o professor assume o papel de transmissor do conhecimento
- modelos centrados na tecnologia: onde o professor é o fornecer e o estudante o consumidor do conhecimento transmitido através da tecnologia
- modelos centrados no estudante: onde o foco é a autonomia do estudante como pregam as teorias construtivistas.
A partir do conceito de Modelo Pedagógico Virtual como construção multidimensional o autor cita 6 diferentes modelos:
"modelo de Community of Inquiry (Garrison, Anderson, & Archer , 2000), o modelo de e-moderating (Salmon, 2000), o modelo de interação em ambientes virtuais de Faerber (2002), o modelo de colaboração em ambientes virtuais de Henri e Basque (2003) os modelos de aprendizagem pela resolução de problemas de Jonassen (1999) e de Hannafin, Land e Oliver (1999), e ainda o modelo para desenho de E-Atividades de aprendizagem centradas na “desconstrução“ de imagens em movimento (Moreira, 2017)"
Todos os modelos são baseados na pedagogia construtivista, que visa a construção do conhecimento a partir da interação entre todos os agentes do processo de ensino-aprendizagem.
Para este artigo, eu escolhi concentrar a atenção nos 3 primeiros modelos por estarem mais próximos da minha realidade como professora e estudante online:
1) Modelo de Community of Inquiry
Community of Inquiry
(comunidade de investigação em Português do Brasil e comunidade de inquirição
em Português de Portugal) é um modelo teórico proposto por Randy Garrison,
Terry Anderson & Walter Archer para o ensino a distância (2000) e
desenvolvido por Garrison & Anderson (2003).
O
modelo de Community of Inquiry busca a experiência do
ensino-aprendizagem em grupo trazendo a perspectiva construtivista para os
ambientes virtuais de aprendizagem.
Este
modelo, utilizado por Anderson e Dron (2012) para analisar as TRÊS GERAÇÕES DE PEDAGOGIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA , envolve três elementos centrais que se influenciam
mutuamente durante o processo:
O modelo, criado para estudar práticas educacionais a distância, é centrado na presença. Não na presença física, mas nos três tipos de presença que têm relevância no processo de ensino-aprendizagem:
- A presença de ensino/docente na arquitetura do modelo pedagógico virtual fazendo a curadoria de conteúdo, preparando as atividades, orientando as discussões e dando feedback.
- A presença social em um ambiente diverso e colaborativo onde todos se sintam convidados e instigados a participar das discussões e pesquisas que proporcionam a construção do conhecimento.
- A presença cognitiva, ou seja, a construção do conhecimento através das interações que promovem o pensamento crítico, que é facilitada pela presença docente e social.
Com o desenvolvimento das tecnologias da Web 3D e a
possibilidade de criação de ambientes virtuais imersivos, o modelo de Community of Inquiry ganha um novo significado na Educação
Digital quando ligado ao conceito de aprendizagem imersiva.
2) Modelo de e-moderating
O modelo de e-moderating foi criado por Gilly Salmon nos
anos 2000 como modelo para criação de comunidades virtuais de aprendizagem.
Este modelo coloca o professor na função de moderador e tem como objetivo a autonomia dos estudantes. Para isso, ele é dividido em 5 etapas:
- Acesso e Motivação: fase de ambientação em que os estudantes conhecem a plataforma, as ferramentas, a metodologia e são motivados a participar ativamente do processo de aprendizagem. As e-atividades estão ligadas ao conhecimento das ferramentas e a plataforma.
- Socialização Online: fase de criação da comunidade de aprendizagem, desenvolvendo uma cultura de colaboração visando melhorar a experiência de aprendizagem. Salmon indica três componentes para o desenvolvimento do grupo: o empreendimento conjunto, o compromisso mútuo e o repertório partilhado. As e-atividades devem favorecer a criação do grupo.
- Troca de Informação: fase de interação e trabalho em conjunto. Aqui as e-atividades devem favorecer a cooperação entre os membros da comunidade. Nesta fase o papel do professor é o de orientar os participantes durante as atividades desenvolvendo assim, uma aprendizagem colaborativa e cooperativa.
- Construção de Conhecimento: fase de desenvolvimento do pensamento crítico através de debates entre os membros da comunidade. O professor tem a função de preparar o debate e incentivar a discussão entre os estudantes a fim de extrair deles suas opiniões e reflexões a partir do conteúdo estudado.
- Desenvolvimento: fase da autonomia, onde os estudantes podem criar a partir do que aprenderam. As e-atividades devem procurar o registro das reflexões e conclusões dos estudantes, a fim de registrar também os resultados do processo de aprendizagem.
3) Modelo de Interação em Ambientes Virtuais
O Modelo de Interação em Ambientes Virtuais proposto
por Faerber em 2002 e coloca a interação entre os membros da comunidade no
centro do processo pois acredita que é a partir desta interação que o
conhecimento será construído.
Neste contexto, as atividades são desenvolvidas em pares ou em grupos em um ambiente virtual de aprendizagem. Ao triângulo Professor-Estudante-Conteúdo foi incorporado o Grupo em uma dinâmica de participação, facilitação e partilha, como mostra Moreira (2020) na figura 3 (p.14):
Nesta abordagem, a participação (participer) dos estudantes envolve
as interações estabelecidas entre eles, abrangendo a comunicação, coordenação e
interdependência mútua. A facilitação (faciliter), por outro lado, está relacionada às
interações estabelecidas entre o professor e o grupo, com o objetivo de
preparar, esclarecer, propor, auxiliar e aconselhar o grupo, com o professor
atuando como um suporte na construção conjunta do conhecimento. Finalmente, o
compartilhamento (partager) refere-se ao conceito de aprendizagem colaborativa.
Pensar a Educação Digital
Pensar a Educação Digital é pensar na multiplicidade
de pedagogias, modelos e ferramentas que possam facilitar tanto o acesso à Educação, quanto os processos de ensino-aprendizagem na Sociedade em Rede.
Assim como a sociedade conectada está em plena desconstrução,
procurando novos caminhos e revendo conceitos, também a educação está passando
por este processo.
Se não temos um manual para a Educação Digital de qualidade,
temos a consciência de que a educação precisa acompanhar as mudanças da sociedade
que sempre é influenciada pelos avanços tecnológicos.
Contudo, ouso compartilhar aqui algumas reflexões sobre
o nosso papel como educadores neste momento:
- Educação Digital ainda é, essencialmente,
Educação. Esta fala do professor António Moreira durante uma aula síncrona me
tocou bastante pois eu mesma insisto nela para lembrar que nós somos, antes de
tudo, professores e portanto, responsáveis por criar ambientes (ecossistemas)
que favoreçam a aprendizagem, a interação e a colaboração entre todas as
pessoas envolvidas no processo.
- A tecnologia é um meio e não depende da
tecnologia, mas sim de cada um de nós, fazermos a Educação acontecer. Aqui,
vale lembrar do que eu disse acima ao dizer que a educação precisa acompanhar as
mudanças na sociedade. Mudanças essas, que são influenciadas pelos avanços tecnológicos.
Lembrando também, que um livro impresso já foi a tecnologia mais inovadora do
momento.
- A importância da comunicação e da
presença social, cognitiva e de ensino (Garrison) no processo de
ensino-aprendizagem tanto online quanto presencial: independentemente do
ambiente em que estamos inseridos, não é a presença física, mas a presença social, cognitiva e de ensino que farão a diferença durante o processo.
Em um momento em que o mundo e a nossa vida
se tornam “fi-gital” e o hibridismo nos conduz (não somente, mas também
literalmente com os carros híbridos), em que dividimos nossa casa e nosso
ambiente de trabalho com robôs e a IA, é impossível pensar a Educação como um
fenômeno isolado dessa realidade.
Criar Ecossistemas de Educação Digital para
a escola formal é uma maneira de preparar os alunos e a comunidade escolar para
viver a realidade da nossa era.
Criar Ecossistemas de Educação Digital OnLIFE, uma maneira de continuar nossa formação (formal e informal) ao longo da
vida.
Se é verdade que as diferentes
nomenclaturas, novas ferramentas disponíveis (sempre em maior número e
variedade) assim como as diferentes possibilidades de criação muitas vezes nos
confundem, também é verdade que, se nós centrarmos nossas modelos de
ensino-aprendizagem no estudante, nós temos a possibilidade de escolher as
ferramentas, conteúdo e metodologia que poderão proporcionar uma aprendizagem
significativa.
O foco de quem ensina continua sendo a
melhor maneira de ensinar, não é mesmo?
Como criar ambientes propícios para o
exercício de ensinar e aprender (dentro da nossa realidade, levando em
consideração os objetivos e necessidades dos estudantes) é o que nós precisamos
procurar sempre (penso eu).
Referências
Schlemmer, E., & Moreira, J. A. (2019). Modalidade da Pós-Graduação Stricto Sensu em discussão: dos modelos de EaD aos ecossistemas de inovação num contexto híbrido e multimodal. Educação Unisinos, 23(4), 689-708.
Moreira, J. António; et al. - Educação digital em rede: princípios para o design pedagógico em tempos de pandemia [Em linha]. Lisboa: Universidade Aberta, 2020. 49 p. (eUAb. Educação a Distância e eLearning; 10). ISBN 978-972-674-881-6
Schlemmer, E., & Moreira, J. A. (2019). Modalidade da Pós-Graduação Stricto Sensu em discussão: dos modelos de EaD aos ecossistemas de inovação num contexto híbrido e multimodal. Educação Unisinos, 23(4), 689-708.
Moreira, J. A., & Schlemmer, E. (2020). Por um novo conceito e paradigma de educação digital onlife. Revista uFG, 20(26).



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